Imagens entregues à Justiça não registram abordagem e perseguição
As imagens da câmera corporal da Guarda Municipal de Londrina entregues à Justiça não registram o momento da abordagem que terminou com a morte de Murilo Dias, de 15 anos. O material encaminhado pela corporação na terça-feira, dia primeiro de setembro, começa por volta das 22h do dia 31 de julho, aproximadamente duas horas depois do horário indicado no boletim de ocorrência para o início da ocorrência.
O intervalo entre o horário registrado no documento oficial e o início da gravação passou a ser um dos principais pontos questionados pela defesa da família. Para os advogados, a ausência justamente do período em que ocorreram a abordagem, a perseguição e os disparos impede, neste momento, uma análise independente da dinâmica que terminou com a morte do adolescente.
Quando a câmera começa a registrar as imagens, a perseguição já havia terminado. A Fiat Toro conduzida pelo pai de Murilo, Volmir Dias, estava batida contra um poste no cruzamento das ruas da Lapa e Gomes Carneiro, no Centro de Londrina. O adolescente já havia morrido e equipes da perícia e outros profissionais trabalhavam no local. O veículo do Instituto Médico-Legal (IML) também aparece nas imagens.
Volmir já havia sido levado para a Central de Flagrantes. O conteúdo disponibilizado pela Guarda Municipal mostra apenas os procedimentos realizados após o desfecho da ocorrência, sem registrar os momentos anteriores que são considerados centrais para a investigação.
Em determinado trecho, um perito conversa com os agentes para tentar compreender o que havia acontecido antes da colisão e dos disparos. O único guarda da equipe que utilizava a câmera, que não estaria diretamente envolvido na ocorrência, relata que houve uma abordagem, seguida de acompanhamento tático, e explica como a perseguição terminou.
A gravação, porém, não mostra a abordagem inicial, a perseguição, a colisão da caminhonete ou o momento em que Murilo foi atingido pelos disparos efetuados por agentes da Guarda Municipal. O vídeo termina depois que o agente coleta os nomes dos profissionais que estavam envolvidos no atendimento da ocorrência.
A lacuna nas imagens é contestada pela advogada Aline Capocci, que representa a família. Segundo ela, a defesa já havia solicitado o material diversas vezes e havia decisões judiciais determinando a apresentação das gravações. O material, entretanto, foi disponibilizado cerca de 30 dias depois da ocorrência e não contém o período correspondente ao momento central do caso.
“Entendemos que houve um claro descumprimento de uma ordem judicial. Já faz mais de 30 dias que os fatos aconteceram e, nesse intervalo, houve diversos pedidos da defesa, assim como diversas decisões judiciais para que essas imagens corporais fossem apresentadas. Agora, quando as gravações chegam ao processo, elas apresentam esse lapso, e o momento exato da ocorrência não aparece”, afirmou a advogada.
A defesa pretende voltar à Justiça para pedir explicações sobre a ausência das imagens e verificar se existem outros arquivos que possam registrar a abordagem. Para os advogados, o intervalo de aproximadamente duas horas precisa ser esclarecido porque não é possível descartar, neste estágio da investigação, a hipótese de que registros importantes não tenham sido preservados ou tenham deixado de ser apresentados.
A família também aguarda a perícia na Fiat Toro em que estavam Murilo e o pai. O veículo foi apreendido depois da ocorrência e levado ao pátio da Guarda Municipal. O exame pode contribuir para esclarecer a posição dos ocupantes, a colisão e outros elementos relacionados à versão apresentada pelos envolvidos.
Em nota, a Secretaria Municipal de Defesa Social informou que a Guarda Municipal de Londrina não irá comentar o conteúdo das gravações, alegando que a investigação não está sob responsabilidade da corporação.
Segundo a secretaria, a Corregedoria instaurou um procedimento por meio de portaria para apurar a ocorrência. Não há prazo definido para a conclusão, já que o período dependerá das diligências consideradas necessárias.
“A não manifestação neste momento visa garantir a isenção, a neutralidade e a preservação do trabalho dos órgãos investigadores”, informou a secretaria.
A ocorrência aconteceu por volta das 20h de 31 de julho. De acordo com a versão apresentada pela Guarda Municipal, Volmir teria ingerido bebida alcoólica, discutido com a esposa, efetuado um disparo de arma de fogo em frente a uma pizzaria e deixado o local de carro com o filho.
Ainda segundo os agentes, o motorista desobedeceu a uma ordem de parada e iniciou uma fuga. Durante o acompanhamento, a caminhonete teria atropelado uma motociclista antes de bater contra um poste.
A família contesta essa versão. Volmir negou que o filho estivesse armado e afirmou que o adolescente passava mal no momento da ocorrência. A mãe de Murilo também relatou que o jovem sofria crises epilépticas e, segundo ela, não teria condições de reagir da maneira descrita pelos agentes.
Com a ausência das imagens do período central da ocorrência, a investigação passa a depender também de outros elementos para reconstituir o que aconteceu.
A Polícia Civil deve confrontar depoimentos, perícias, registros disponíveis e as gravações entregues à Justiça para determinar a sequência dos acontecimentos e esclarecer as circunstâncias da morte de Murilo.
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Fonte:Paraná Jornal





