Uma das principais moléculas envolvidas na relação entre exercício físico e saúde cerebral é o fator neurotrófico derivado do cérebro, conhecido pela sigla BDNF. Trata-se de uma proteína que favorece o crescimento, a sobrevivência e a formação de conexões entre os neurônios. Ela também participa da plasticidade sináptica, processo pelo qual o cérebro modifica e fortalece suas conexões conforme aprendemos, memorizamos informações e adquirimos novas habilidades.
A prática regular de exercícios ajuda a manter a atividade desse sistema elevada. Em termos simples, a atividade física fornece ao cérebro sinais biológicos que contribuem para sua manutenção e adaptação, como se ajudasse a criar um ambiente mais favorável para a construção e conservação das redes neurais.
Durante boa parte do século XX, os cientistas acreditavam que o cérebro adulto era incapaz de produzir novos neurônios. Hoje sabemos que essa ideia estava errada. A atividade física é uma das evidências que ajudaram a mudar essa compreensão, pois o exercício estimula a neurogênese, isto é, a formação de novos neurônios. Esse efeito é especialmente estudado no giro denteado do hipocampo, uma estrutura cerebral intimamente relacionada à formação e à consolidação de memórias. Entre os diferentes tipos de atividade física, os exercícios aeróbicos estão entre os estímulos mais consistentes conhecidos para favorecer esse processo.
Além de estimular a produção de novos neurônios, o exercício pode influenciar o próprio tamanho do hipocampo. Essa estrutura tende a diminuir de volume com o envelhecimento, e, durante as fases mais avançadas da vida, essa redução pode chegar a aproximadamente 1% a 2% de seu volume por ano. Um dos estudos mais importantes sobre o assunto acompanhou 120 adultos mais velhos durante um ano. Os participantes foram divididos entre um grupo que realizou caminhadas aeróbicas e outro que participou de atividades de alongamento e tonificação muscular.
Ao final do período, o grupo que realizou exercício aeróbico apresentou um aumento de aproximadamente 2% no volume da região anterior do hipocampo. Esse crescimento foi equivalente, em termos aproximados, a compensar um a dois anos da perda relacionada à idade. O aumento também esteve associado a níveis mais elevados de BDNF no sangue. Enquanto isso, o volume do hipocampo do grupo de controle diminuiu durante o mesmo período.
Há, porém, uma ressalva importante que impede uma interpretação simplista desses resultados. O grupo que realizou alongamentos e exercícios de tonificação também apresentou melhora nos testes de memória, mesmo tendo sofrido redução no volume do hipocampo. Além disso, as alterações nos níveis sanguíneos de BDNF não estiveram diretamente associadas à melhora da memória. Isso significa que as evidências de que o exercício aeróbico pode alterar positivamente a estrutura do hipocampo são relevantes, e que a melhora cognitiva também foi observada, mas não é possível afirmar com segurança que o aumento do hipocampo causado pelo BDNF seja, sozinho, o responsável pela melhora da memória. O cérebro é um sistema extremamente complexo, e diferentes mecanismos provavelmente atuam simultaneamente.
Os benefícios não se limitam à estrutura cerebral. Pessoas que praticam exercícios regularmente por longos períodos tendem a apresentar melhor memória, maior velocidade de processamento de informações e melhor funcionamento das chamadas funções executivas, que incluem habilidades como planejamento, controle da atenção, tomada de decisões e capacidade de alternar entre diferentes tarefas.
Esses efeitos parecem ser particularmente relevantes em adultos mais velhos e em pessoas que já apresentam algum grau de comprometimento cognitivo. O exercício também pode melhorar o humor. Em alguns estudos, os efeitos sobre sintomas de depressão leve a moderada foram comparáveis aos observados com determinados tratamentos medicamentosos, embora isso não signifique que exercício e medicamentos sejam equivalentes ou intercambiáveis para todas as pessoas.
Os mecanismos responsáveis por esses efeitos sobre o humor são variados. O BDNF participa desse processo, assim como as endorfinas, substâncias produzidas pelo organismo que podem influenciar a percepção de dor e o estado emocional. Entretanto, pesquisas mais recentes indicam que os endocanabinoides também desempenham um papel importante, especialmente na sensação de bem-estar e euforia que algumas pessoas experimentam durante ou depois de exercícios aeróbicos prolongados, fenômeno popularmente conhecido como “euforia do corredor”. Durante muito tempo, esse efeito foi atribuído principalmente às endorfinas, mas atualmente sabemos que os endocanabinoides provavelmente contribuem de maneira significativa para essa experiência.
Talvez o benefício mais importante do exercício seja justamente aquele que aparece a longo prazo: a proteção contra o declínio cognitivo associado ao envelhecimento. A prática regular e sustentada de atividade física está entre os fatores modificáveis mais fortemente associados à redução do risco de deterioração cognitiva e demência. Essa proteção provavelmente não depende de um único mecanismo. O exercício pode estimular a neurogênese, favorecer a atividade do BDNF, melhorar a circulação sanguínea cerebral, estimular a formação e a manutenção de vasos sanguíneos, reduzir processos inflamatórios e promover a liberação de diversas moléculas produzidas pelos músculos que também exercem efeitos sobre o cérebro.
Essa comunicação entre músculos e cérebro é literal. Quando os músculos trabalham, eles liberam moléculas sinalizadoras na circulação sanguínea. Essas substâncias, frequentemente chamadas de miocinas e outros fatores derivados do músculo, podem alcançar diferentes órgãos e influenciar processos metabólicos e neurológicos. Portanto, a relação entre atividade muscular e funcionamento cerebral não é apenas uma metáfora: os tecidos musculares em atividade realmente enviam sinais químicos que podem afetar o cérebro.
Ainda assim, é importante manter uma perspectiva realista sobre o que a ciência consegue afirmar. Uma parte considerável dos conhecimentos detalhados sobre os mecanismos moleculares envolvidos vem de estudos realizados em animais. Além disso, quando pesquisadores avaliam BDNF em seres humanos, frequentemente medem sua concentração no sangue, que não representa perfeitamente a quantidade ou a atividade dessa proteína dentro do cérebro. Por isso, as evidências de que o exercício está associado a benefícios como melhor memória, melhor humor e menor risco de declínio cognitivo são mais consistentes do que as evidências capazes de explicar exatamente todos os mecanismos responsáveis por esses efeitos.
Os resultados também variam de acordo com a pessoa, sua idade, seu estado de saúde e o tipo e a intensidade do treinamento realizado. Os exercícios aeróbicos possuem algumas das evidências mais específicas relacionadas à saúde cerebral, mas o treinamento de força também pode beneficiar a cognição e faz parte de uma estratégia mais completa de atividade física. Da mesma forma, o exercício deve ser entendido como uma forma de proteção e promoção da saúde, e não como uma cura. Ele pode reduzir determinados riscos e contribuir para o funcionamento cerebral, mas não elimina a possibilidade de desenvolvimento de doenças neurológicas ou transtornos de saúde mental.
Na prática, manter uma rotina regular de exercícios aeróbicos, combinada com algum treinamento de força e uma quantidade adequada de sono, está entre as estratégias com melhor respaldo científico para preservar a saúde cerebral ao longo da vida. Não é necessário começar com grandes volumes de treinamento para obter benefícios: mesmo quantidades moderadas de atividade física podem ser úteis quando realizadas de maneira consistente. O fato de estudos terem observado benefícios em pessoas mais velhas que já apresentavam sinais de redução do volume cerebral também reforça uma mensagem importante: começar a se exercitar mais tarde na vida ainda pode trazer benefícios. Não é necessariamente tarde demais para o cérebro responder positivamente à atividade física.
Essas informações têm caráter educativo e não substituem orientação médica. O exercício contribui para a saúde cerebral, mas não deve ser considerado capaz de prevenir ou curar sozinho doenças neurológicas ou transtornos de saúde mental. Pessoas que apresentam alterações persistentes de memória, cognição ou humor devem procurar avaliação de um profissional qualificado. Da mesma forma, quem possui problemas de saúde ou pretende iniciar um programa de exercícios significativamente diferente de sua rotina habitual deve buscar orientação profissional para determinar uma abordagem segura e adequada.
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Fonte:Paraná Jornal





