Uma startup chamada Reflect Orbital pretende usar espelhos instalados em satélites para oferecer a seus clientes acesso à luz solar durante a noite. A empresa recebeu autorização da Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) para lançar um satélite de demonstração em uma missão de compartilhamento de lançamento da SpaceX. A
proposta consiste em colocar em órbita um satélite equipado com um painel de Mylar de aproximadamente 18,3 metros de comprimento. Quando o painel estiver posicionado corretamente, ele poderá refletir a luz do Sol para uma área previamente determinada em terra ou no mar, mesmo depois que o Sol já tiver desaparecido abaixo do horizonte para aquela região.
A empresa aponta diversas possíveis aplicações para a tecnologia. A principal delas seria aumentar a produção de usinas solares, permitindo que os painéis continuem recebendo alguma iluminação depois do pôr do Sol. Outras possibilidades incluem aumentar a produtividade agrícola e fornecer iluminação durante a noite em áreas urbanas ou regiões atingidas por desastres. A ideia, porém, enfrenta limitações técnicas e também levanta questões ambientais e astronômicas.
A órbita planejada para os satélites faria com que eles passassem sobre determinadas regiões em horários semelhantes a cada dia. O mesmo desenho orbital, entretanto, impede que um único satélite permaneça sobre uma área durante longos períodos. Segundo a proposta, cada satélite seria capaz de fornecer aproximadamente 3,5 minutos de iluminação contínua durante uma passagem antes de deixar a região de alcance. Para transformar esses períodos curtos em uma fonte de iluminação mais frequente e previsível, a empresa prevê uma constelação formada por dezenas de milhares de satélites, chegando a uma meta de 50 mil unidades.
Um dos objetivos apresentados pela Reflect Orbital é produzir uma iluminação equivalente a até 20% da intensidade da luz solar ao meio-dia. Uma análise citada no texto, realizada por dois professores de astronomia, calculou que seriam necessários cerca de 3 mil satélites para alcançar esse nível de iluminação nas condições consideradas. A diferença entre essa estimativa e a escala muito maior prevista pela empresa levanta dúvidas sobre a quantidade de satélites que seria necessária para oferecer cobertura comercial ampla e sobre a viabilidade econômica de uma constelação dessa dimensão.
Além das dificuldades técnicas e financeiras, a proposta desperta preocupação entre astrônomos e pesquisadores que estudam os efeitos da crescente quantidade de satélites em órbita. A introdução de grandes constelações já modificou a aparência do céu noturno e pode interferir em observações astronômicas. Satélites iluminados pelo Sol podem aparecer como pontos brilhantes nas imagens produzidas por telescópios, dificultando a identificação de objetos celestes mais fracos.
A questão da poluição luminosa também aparece nas discussões sobre outros projetos de infraestrutura espacial. A própria possibilidade de instalar centros de processamento de dados em órbita, por exemplo, provocou preocupações relacionadas à quantidade de luz artificial ou refletida que poderia atingir o solo e o espaço. Diversas propostas já foram estudadas para reduzir o brilho dos satélites, incluindo o uso de revestimentos extremamente escuros capazes de absorver grande parte da luz solar que normalmente seria refletida por suas superfícies.
No caso dos espelhos orbitais, a preocupação é ainda maior porque a reflexão da luz seria justamente a finalidade do equipamento. A American Astronomical Society alertou que uma constelação desse tipo poderia aumentar a poluição luminosa e, dependendo de sua intensidade e geometria, representar riscos para observadores que utilizam telescópios. Se a demonstração funcionar conforme planejado, o ponto iluminado produzido pelo satélite poderá apresentar um brilho aparente muito elevado, potencialmente superior ao da Lua cheia em determinadas condições e regiões.
Há ainda uma questão ambiental que vai além da astronomia. Muitos animais utilizam a alternância natural entre períodos claros e escuros para regular processos biológicos, como alimentação, reprodução, migração e hibernação. A exposição à iluminação artificial durante a noite já é estudada como um possível fator de alteração desses ritmos naturais. Uma constelação capaz de introduzir luz solar refletida em regiões que normalmente estariam no escuro poderia ampliar esse problema, embora a dimensão exata de seus efeitos dependa de fatores como intensidade, duração, frequência e localização dos feixes.
Em uma constelação de 50 mil satélites, a escala do fenômeno seria muito maior. Mesmo quando um satélite não estivesse diretamente iluminando o alvo pretendido, seus movimentos e ajustes orbitais poderiam produzir reflexos ou feixes sobre outras áreas. A mudança de um alvo para outro também poderia fazer com que a região iluminada atravessasse grandes extensões de território, alterando temporariamente a quantidade de luz recebida por áreas que não estavam originalmente previstas como destino.
Para os seres humanos, uma mudança desse tipo também modificaria a experiência do céu noturno. Regiões que hoje permanecem naturalmente escuras poderiam receber períodos adicionais de iluminação, enquanto observatórios e pesquisadores precisariam lidar com mais fontes artificiais ou refletidas de luz. Para a fauna, o impacto potencial é mais difícil de prever, mas alterações persistentes no ciclo de claro e escuro podem afetar comportamentos e processos fisiológicos que dependem da duração natural da noite.
Outro ponto que exige cuidado é a questão dos impactos atmosféricos associados à expansão das constelações de satélites. O descarte de satélites ao fim de sua vida útil faz com que muitos deles reentrem na atmosfera e sejam destruídos pelo calor e pelo atrito. Pesquisadores investigam os efeitos dos materiais liberados nessas reentradas sobre a atmosfera, incluindo possíveis alterações na química da alta atmosfera e na camada de ozônio.
No entanto, não é correto afirmar simplesmente que os satélites Starlink “danificam o ozônio” como um efeito já estabelecido em qualquer escala relevante; trata-se de uma área de pesquisa sobre a qual ainda existem incertezas quanto à magnitude e às consequências de longo prazo.
A proposta da Reflect Orbital representa, portanto, uma tentativa de transformar a luz solar em um recurso disponível também durante parte da noite por meio de uma infraestrutura orbital. A possibilidade de ampliar a geração de energia solar, auxiliar determinadas atividades agrícolas ou iluminar áreas durante emergências é tecnicamente interessante, mas a mesma característica que torna a tecnologia útil — a capacidade de refletir grandes quantidades de luz para a superfície — pode produzir consequências indesejadas. Antes que uma constelação dessa escala se torne realidade, será necessário avaliar não apenas sua viabilidade econômica e orbital, mas também os efeitos sobre observações astronômicas, ecossistemas, ciclos naturais de luminosidade e a própria aparência do céu noturno.
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Fonte:Paraná Jornal





