Na ilha de Quios, no mar Egeu, os antigos gregos mastigavam pedaços secos de resina da aroeira, uma árvore conhecida como mastic, para aliviar problemas estomacais. O filósofo e médico grego Hipócrates também utilizava essa resina como remédio à base de plantas para tratar distúrbios gastrointestinais.
Milhares de anos depois, criadores de conteúdo nas redes sociais passaram a promover a goma de mascar de mastic como uma forma de melhorar a saúde intestinal e bucal e até mesmo de deixar a linha da mandíbula mais definida. No entanto, especialistas alertam que nem todas essas alegações são sustentadas por evidências científicas e que mascar mastic também pode apresentar alguns riscos.
As empresas que comercializam atualmente a goma de mastic acrescentam ingredientes como hortelã-verde para dar sabor e cálcio para ajudar no fortalecimento do esmalte dentário, além de atribuir ao produto benefícios associados ao seu uso tradicional. Os efeitos da resina sobre a saúde ainda foram pouco estudados diretamente em seres humanos, mas alguns estudos pequenos sugerem que Hipócrates pode ter identificado propriedades reais da planta.
Diversos compostos vegetais encontrados na aroeira apresentam propriedades antibacterianas e anti-inflamatórias bem documentadas. Pesquisas indicam que essas substâncias podem combater a bactéria Helicobacter pylori, associada a úlceras, e aliviar sintomas relacionados à doença de Crohn, à síndrome do intestino irritável e à dispepsia, uma forma de indigestão crônica. Esses compostos também demonstraram capacidade de reduzir os níveis de colesterol e de glicose no sangue em determinadas pesquisas.
Entretanto, poucos desses estudos envolveram pessoas que realmente mascavam goma de mastic. Na maioria dos casos, os participantes receberam suplementos de óleo ou pó contendo extratos concentrados da planta. A farmacologista Roja Rahimi, da Universidade de Ciências Médicas de Teerã, no Irã, afirma que, no tratamento de problemas gastrointestinais e metabólicos, a mastigação da goma de mastic não apresenta eficácia considerável.
Portanto, não é possível simplesmente concluir que os efeitos observados com extratos concentrados sejam reproduzidos quando a resina é consumida na forma de goma de mascar.
Por outro lado, existem indícios mais consistentes de benefícios para a saúde bucal. Uma revisão publicada em 2023 concluiu que o mastic pode ajudar a reduzir o acúmulo de placa bacteriana, contribuindo para a prevenção de cáries e doenças gengivais, além de apresentar potencial para combater células associadas ao câncer de boca.
Pesquisas clínicas sugerem que alguns compostos presentes na resina podem limitar a disseminação dessas células e estimular sua morte, embora isso não signifique que a goma de mastic possa ser considerada um tratamento contra o câncer.
As propriedades antibacterianas da resina também podem contribuir para melhorar o hálito. Em um estudo realizado com adolescentes, aqueles que utilizaram pasta de dentes contendo mastic três vezes ao dia durante duas semanas apresentaram níveis menores de sulfeto de hidrogênio no hálito.
Esse composto, produzido durante a fermentação realizada por determinadas bactérias presentes na boca, é uma das substâncias responsáveis pelo mau cheiro característico da halitose. O resultado sugere um possível benefício para o controle do odor bucal, embora não permita concluir que a goma de mastic seja uma solução universal para o mau hálito.
Quando o assunto são os supostos efeitos estéticos sobre o rosto, porém, as evidências são muito mais fracas. Três das cinco principais marcas de goma de mastic que fazem divulgação nas mídias sociais promovem a ideia de que mascar o produto pode deixar a mandíbula mais marcada.
Não há, entretanto, pesquisas que sustentem essa afirmação, segundo Anette Vistoso, especialista em medicina orofacial da Faculdade de Odontologia Herman Ostrow da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles.
Poucos cientistas investigaram diretamente se mascar mastic ou mesmo uma goma convencional pode alterar o formato do rosto. Um estudo realizado na Coreia do Sul e publicado em 2024 sugere que isso não acontece.
Pessoas que mascaram goma convencional três vezes ao dia durante seis meses não apresentaram alterações na aparência da linha da mandíbula. Portanto, a ideia de que mascar uma goma particularmente resistente seja capaz de transformar significativamente o formato do rosto não encontra respaldo científico até o momento.
Além disso, mascar uma goma muito firme pode fortalecer excessivamente os músculos responsáveis pela mastigação, segundo Vistoso. A especialista relata ter atendido muitos pacientes que desenvolveram dores na mandíbula por mascar goma excessivamente ou que passaram a apertar os dentes com tanta força que chegaram a desgastar seus dispositivos de proteção utilizados durante a noite. Por esse motivo, ela não recomenda o hábito de mascar qualquer tipo de goma.
Para pessoas interessadas especificamente nos possíveis efeitos gastrointestinais ou metabólicos associados ao mastic, Rahimi recomenda conversar com um médico sobre a possibilidade de utilizar cápsulas contendo óleo ou pó da planta, em vez de presumir que a mastigação da goma produzirá os mesmos efeitos observados em estudos com extratos concentrados. Ainda assim, a especialista ressalta que o mastic está longe de ser uma solução para todos os problemas de saúde e não deve ser tratado como uma espécie de remédio universal.
Para pessoas saudáveis, ela não recomenda o uso prolongado de medicamentos ou suplementos à base de plantas como substituto de hábitos saudáveis. Uma alimentação equilibrada e mudanças no estilo de vida continuam sendo as estratégias mais importantes para a manutenção da saúde.
Por outro lado, para pessoas que sofrem com mau hálito ou determinados problemas dentários e gengivais, a goma de mastic pode oferecer algum benefício, embora seja importante considerar suas limitações e possíveis efeitos indesejados.
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Fonte:Paraná Jornal





