A trajetória da atriz Odelair Rodrigues, nome fundamental para a formação da cena teatral e televisiva do Estado, será revisitada no espetáculo “Um Recital para Odelair Rodrigues”, apresentado pela Cia Kà de Teatro nos dias três, quatro e 11 de outubro, com entrada gratuita e tradução em Libras.
O espetáculo será apresentado neste sábado e domingo, no Espaço Fantástico das Artes, e no dia 11, no Teatro Londrina, no Memorial de Curitiba. A montagem tem direção de Kelvin Millarch, atuação e canto de Taciane Vieira e música ao vivo de Jean Gabriel.
A nova temporada ocorre quase quatro anos depois da primeira montagem e amplia o olhar sobre a artista. Além de recuperar episódios da carreira de Odelair, a peça aborda sua relação com a boemia e os bares de Curitiba.
“Eu quero lembrar o Paraná inteiro que a Odelair está viva, que ela existe e eu não quero deixar ela apagada. O que eu puder fazer enquanto eu respirar e se eu tiver a oportunidade eu vou trazer ela sempre em pauta”, afirma o diretor Kelvin Millarch.
Taciane Vieira interpreta Odelair Rodrigues sem buscar uma reprodução literal da atriz. A proposta é estabelecer uma relação entre duas mulheres negras que encontraram no palco uma forma de expressão e de trabalho.
“A gente se mistura bastante no quesito mulher, negra, atriz. Ela também era cantora, então nessa parte a gente pode se confundir ali. Não vai ser uma imitação, vai ser uma homenagem para Odelair, mas eu estou bebendo de tudo o que ela deixou”, explica Taciane.
Odelair Rodrigues nasceu em Curitiba em 1935 e teve contato com a arte ainda na infância. Aos sete anos, no Grupo Escolar Xavier da Silva, levantou a mão quando uma professora perguntou quem sabia cantar, dançar ou declamar. A menina cantou “Vatapá”, de Dorival Caymmi, e fez sua primeira apresentação.
Em 1952, aos 17 anos, entrou para o grupo de teatro do Colégio Estadual do Paraná. Foi ali que começou uma trajetória que passaria pelos palcos, pelo rádio, pela televisão e pelo cinema. O próprio Colégio Estadual mantém Odelair Rodrigues entre os nomes que passaram por sua formação artística, ao lado de atores como José Maria Santos, Ary Fontoura, Herson Capri, Denise Stoklos, Aloísio Cherobim e Lala Schneider.
A carreira também foi marcada pelas dificuldades impostas a uma mulher negra que tentava viver profissionalmente da arte. Formada em contabilidade, Odelair chegou a trabalhar como doméstica diante da dificuldade de encontrar espaço na profissão, mas continuou atuando no teatro.
Ela ajudou a fundar o Teatro de Bolso, na Praça Rui Barbosa, e integrou o Teatro de Comédia do Paraná. Também construiu uma trajetória importante no rádio, especialmente nos radioteatros da Rádio Clube Paranaense, em parceria com Ary Fontoura.
Na televisão, Odelair se tornou uma das pioneiras da dramaturgia produzida no Paraná. Em 1966, interpretou Mamãe Dolores na novela “O Direito de Nascer”, exibida pela TV Paraná, Canal 6. O trabalho teve grande repercussão e rendeu à atriz o Prêmio Curumim naquele ano.
A atuação em “O Direito de Nascer” colocou Odelair entre os nomes que ajudaram a estabelecer a produção teatral e televisiva paranaense. Mais tarde, ela também participou de novelas como “Escrava Isaura”, “Vida Roubada” e “Estranha Melodia”, além de trabalhos no cinema.
A importância de Odelair ultrapassou sua própria carreira. Ao lado de nomes como José Maria Santos, Lala Schneider, Antônio Carlos Kraide, Lutero Almeida e outros artistas, ela integrou uma geração responsável pela consolidação de uma cena teatral profissional em Curitiba.
A década de 1960 foi decisiva para esse processo. A criação do Curso Permanente de Teatro e, posteriormente, do Teatro de Comédia do Paraná ajudou a formar artistas e ampliar a produção local. Odelair Rodrigues também participou desse movimento e ajudou a construir uma cena que passou a apresentar trabalhos produzidos na própria cidade.
A Prefeitura de Curitiba reconhece Odelair Rodrigues como uma das figuras centrais das artes cênicas do Estado e destaca sua atuação como a primeira atriz preta paranaense a alcançar projeção no rádio, no teatro e na televisão.
O legado da atriz também está presente fisicamente na cidade. Em 2002, foi criado o Espaço Cultural Odelair Rodrigues, posteriormente transferido para a Rua Treze de Maio. Odelair morreu em Curitiba em 1º de julho de 2003, aos 68 anos.
Duas décadas depois de sua morte, a artista continua sendo referência para novas gerações. “Um Recital para Odelair Rodrigues” retoma essa trajetória para colocar novamente em cena uma mulher que participou da construção do teatro e da televisão feitos no Paraná.
Serviço
“Um Recital para Odelair Rodrigues”
3 de outubro, às 21h – Espaço Fantástico das Artes
4 de outubro, às 20h – Espaço Fantástico das Artes
11 de outubro, às 20h – Teatro Londrina, no Memorial de Curitiba
Entrada gratuita. Todas as sessões têm tradução em Libras.
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Fonte:Paraná Jornal





