Consumir mais açúcar durante o tratamento com antibióticos pode intensificar os efeitos desses medicamentos sobre as bactérias benéficas do intestino, segundo uma nova pesquisa. O estudo sugere que a alimentação pode desempenhar um papel importante na extensão das alterações provocadas pelos antibióticos no microbioma intestinal, embora ainda sejam necessários novos estudos para determinar se reduzir o consumo de açúcar durante o tratamento realmente melhora a recuperação dos pacientes.
O microbioma intestinal é formado por uma enorme comunidade de microrganismos que vive no aparelho digestivo e mantém uma relação de longo prazo com o organismo humano. Essas bactérias participam da digestão, ajudam no funcionamento do sistema imunológico e estão envolvidas em diversos outros processos importantes para a saúde.
Os antibióticos estão entre os medicamentos mais utilizados no mundo e são fundamentais para combater infecções bacterianas, mas não conseguem distinguir perfeitamente entre microrganismos prejudiciais e bactérias benéficas. Como consequência, o tratamento pode reduzir parte da comunidade microbiana normal do intestino.
Quando essa comunidade perde diversidade, o ambiente intestinal pode ficar mais vulnerável à expansão de espécies potencialmente perigosas. Um microbioma diversificado, por outro lado, tende a oferecer maior resistência à proliferação de agentes que podem causar doenças. O problema é que os antibióticos podem alterar esse equilíbrio ao eliminar uma parcela das bactérias que normalmente competiriam por espaço e nutrientes.
Para investigar a influência da alimentação nesse processo, pesquisadores da NYU Langone Health, da City of Hope e do Memorial Sloan Kettering acompanharam 9.419 refeições consumidas por 173 pacientes hospitalizados com câncer. Os cientistas registraram detalhadamente o que os pacientes comiam e acompanharam as alterações no microbioma intestinal ao longo do tratamento.
Os resultados indicaram uma associação entre o consumo de açúcar e uma perda maior de diversidade bacteriana. Para cada 100 gramas adicionais de açúcar consumidos durante as 48 horas anteriores ao tratamento, os pesquisadores observaram uma redução adicional de aproximadamente 21% na chamada diversidade alfa, uma medida utilizada para avaliar a variedade de espécies bacterianas presentes no intestino.
O estudo, publicado em 30 de setembro na revista científica Nature, também encontrou uma associação entre dietas com maior quantidade de açúcar, o uso de antibióticos e o aumento da presença de Enterococcus faecium no intestino dos pacientes.
Essa espécie bacteriana pode fazer parte do microbioma humano, mas também está associada a infecções que podem ser difíceis de tratar, principalmente em pessoas com o sistema imunológico comprometido.
Experimentos realizados com camundongos apresentaram resultados semelhantes. Os animais receberam o antibiótico biapenem enquanto consumiam uma dieta contendo sacarose, um tipo de açúcar. No terceiro dia do experimento, a população intestinal de bactérias do gênero Enterococcus havia aumentado 16,3 vezes. No sexto dia, a quantidade de bactérias havia chegado a 33,4 vezes o nível observado anteriormente.
Segundo Jonas Schluter, professor-assistente do Departamento de Microbiologia da NYU Langone e um dos autores principais do estudo, compreender os fatores que aumentam os danos colaterais provocados pelos antibióticos é importante porque as alterações do microbioma podem estar relacionadas a problemas de saúde que persistem mesmo depois do fim do tratamento.
Para os pesquisadores, os resultados levantam a possibilidade de que mudanças na alimentação durante e depois do uso de antibióticos, especialmente a redução do consumo de doces e outros alimentos ricos em açúcares simples, possam ajudar a limitar esses efeitos.
Os pesquisadores escolheram concentrar a investigação em pessoas com cânceres do sangue porque esses pacientes frequentemente precisam receber antibióticos e permanecem internados por períodos prolongados, o que permite acompanhar de maneira mais precisa tanto a alimentação quanto as alterações no microbioma.
Em cada refeição, a equipe registrou os alimentos consumidos pelos pacientes e, diariamente, coletou amostras para analisar a composição das bactérias intestinais. A combinação de registros alimentares detalhados com amostras biológicas coletadas repetidamente tornou o estudo um dos maiores e mais detalhados trabalhos desse tipo realizados até o momento.
O microbioma tem ganhado importância crescente na área de tratamento do câncer. Para pacientes submetidos a terapias intensivas, como transplantes de medula óssea ou de células-tronco hematopoéticas, preservar a diversidade das bactérias intestinais pode ter consequências relevantes. Esses pacientes normalmente permanecem hospitalizados durante várias semanas enquanto passam por quimioterapia e recebem medicamentos, incluindo antibióticos.
Nesse período, tanto a alimentação quanto o microbioma podem sofrer mudanças significativas. Quando grande parte das bactérias que normalmente compõem o ecossistema intestinal é eliminada ou reduzida pelos medicamentos, espécies que permanecem podem encontrar menos competição por espaço e nutrientes. Entre elas está o Enterococcus faecium, que pode se multiplicar em determinadas condições e representar um risco maior para pacientes com imunidade comprometida.
A relação entre a deterioração do microbioma e os resultados do tratamento é especialmente preocupante em pessoas com cânceres do sangue. Segundo Jonathan Peled, coautor principal do estudo e diretor associado do Centro de Neoplasias Hematológicas do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, alterações prejudiciais no microbioma estão associadas, nesse grupo de pacientes, a resultados clínicos piores, incluindo maior mortalidade e maior ocorrência de infecções.
O próximo passo, de acordo com os pesquisadores, será realizar ensaios clínicos capazes de verificar se mudanças temporárias na alimentação realmente produzem benefícios para esses pacientes.
O estudo atual identificou uma associação importante, mas não é suficiente para provar que simplesmente comer mais açúcar cause diretamente a expansão de bactérias potencialmente perigosas ou que reduzir o açúcar necessariamente diminua o risco de complicações.
Uma das hipóteses levantadas é que os antibióticos eliminem muitas das bactérias que normalmente competiriam com espécies como Enterococcus faecium. As bactérias sobreviventes, então, encontrariam um ambiente com menos competição e poderiam aproveitar os açúcares provenientes da alimentação como fonte de energia para se multiplicar.
William Jogia, pesquisador e coautor do estudo, descreveu os açúcares da dieta como um possível amplificador das alterações provocadas pelos antibióticos no microbioma. Segundo essa interpretação, as bactérias potencialmente prejudiciais que sobrevivem ao tratamento poderiam se beneficiar dos nutrientes disponíveis na alimentação e aumentar sua população.
Ainda não está claro, porém, qual é exatamente o mecanismo responsável pelo efeito observado. O açúcar pode favorecer diretamente o crescimento do Enterococcus, pode prejudicar indiretamente outras bactérias que normalmente competiriam com ele ou pode provocar alterações no ambiente intestinal que favoreçam determinadas espécies. Também não se sabe se diferentes tipos de açúcar produzem efeitos semelhantes.
Os resultados levantam, portanto, a possibilidade de que reduzir o consumo de açúcares simples durante e após o tratamento com antibióticos seja uma estratégia relativamente simples para limitar parte dos danos ao microbioma. Entretanto, isso ainda não deve ser interpretado como uma recomendação médica para que pacientes interrompam ou modifiquem tratamentos prescritos.
A alimentação durante um tratamento médico, especialmente em pacientes com câncer ou outras condições que comprometem a imunidade, deve ser definida de acordo com as necessidades individuais e com orientação da equipe responsável. O principal achado da pesquisa, por enquanto, é a identificação de uma possível relação entre maior consumo de açúcar, antibióticos e perda da diversidade bacteriana intestinal.
Novos estudos serão necessários para determinar se essa relação é causal e, principalmente, se uma mudança controlada na alimentação pode reduzir infecções, melhorar a recuperação e produzir benefícios concretos para a saúde dos pacientes.
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Fonte:Paraná Jornal





