Na ceia natalina curitibana, o peru costuma ser o prato principal, acompanhado de farofa e, em alguns lares, de tender com cravos-da-índia. O arroz à grega, o salpicão e a uva-passa são itens obrigatórios, enquanto sobremesas como rabanada, panetones e pavê completam a mesa. A gengibirra, refrigerante típico da cidade, é considerada indispensável.
A ceia de Natal no Brasil nunca é só sobre comida. É sobre exagero, memória afetiva, disputas culinárias silenciosas e piadas que todo mundo finge não gostar, mas espera ouvir.
A ceia de Natal no Brasil vai além da comida. Ela envolve exagero, memória afetiva, disputas culinárias silenciosas e piadas que todos fingem não gostar, mas esperam ouvir. Em torno da mesa, o ritual se repete a cada ano: alguém promete não exagerar, outro reclama de um ingrediente e, ao final, todos comem demais. O prato principal costuma ser o peru, símbolo máximo da ceia natalina brasileira. Embora nem sempre seja o favorito, quase sempre ocupa o centro da mesa. Quando não é ele, aparece o chester, o frango assado ou outra ave que cumpra o papel de “prato oficial do Natal”. Em muitos lares, esse prato chega recheado de farofa, que sempre encontra um lugar, inclusive no salpicão quando não há batata palha. O tender também ganhou espaço definitivo na ceia. Geralmente assado com cravos-da-índia, que perfumam a casa e anunciam que o jantar está próximo, ele costuma vir acompanhado de molhos agridoce e frutas. É o tipo de prato que faz alguém comentar: “eu só como isso no Natal”, enquanto se serve pela quarta vez. Ao redor do prato principal, surgem os acompanhamentos que parecem obrigatórios. O arroz à grega aparece com sua mistura de legumes, presunto e outros ingredientes que variam e quase sempre ele vem com uva-passa. O salpicão também marca presença, com frango desfiado, maionese, legumes e batata palha, assim como a tradicional maionese de batata, que raramente acaba na noite do dia 24 e costuma reaparecer no almoço do dia seguinte. A uva-passa, aliás, merece destaque. Poucos ingredientes conseguiram se tornar tão controversos quanto ela. Está no arroz, na farofa, no salpicão, no tender e, às vezes, em lugares que ninguém lembra quem colocou. Virou piada nacional, tema de memes e motivo de negociações familiares do tipo “tira do meu prato, mas deixa no resto”. Ainda assim, ano após ano, ela resiste, porque tradição também é isso. Depois da ceia, chegam as sobremesas. A rabanada mantém viva a herança portuguesa, enquanto panetones, chocotones, pudins e tortas dividem espaço na mesa. E então vem o pavê. Com ele, a piada de “tiozão” inevitável, dita geralmente por alguém que já contou isso em todos os Natais anteriores: “é pavê ou é pacumê?”. Todos já sabem, todos reviram os olhos e, mesmo assim, ninguém imagina o Natal sem esse momento. A clássica gengibirra Para acompanhar tudo isso, além de vinhos e espumantes, o refrigerante segue firme como presença essencial na ceia brasileira. Em Curitiba, essa tradição tem nome e sabor: os refrigerantes Cini. Clássicos nas festas de fim de ano, eles fazem parte da memória de muitas famílias. Entre todos, a gengibirra ocupa um lugar especial. De sabor marcante e aroma inconfundível, ela divide opiniões, mas é quase unanimidade em uma coisa: para muitos curitibanos, simplesmente não é Natal sem gengibirra na mesa. No fim das contas, pouco importa se o peru ficou seco, se a farofa veio dentro da ave ou servida à parte, se alguém passou a ceia inteira desviando da uva-passa ou se a piada do pavê foi repetida pelo 100º Natal seguido. A ceia de Natal no Brasil é isso: um encontro imperfeito, barulhento, exagerado e exatamente por isso tão especial. Mais do que pratos, ela reúne histórias, afetos e a certeza de que, no ano seguinte, tudo vai se repetir. Mas alguém aí quer que seja diferente?



