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Feito Pipa aposta no Brasil profundo para conquistar indicação ao Oscar

Longa de Allan Deberton, estrelado por Yuri Gomes e Lázaro Ramos, retrata o sertão cearense e busca espaço na premiação após sucessos de Ainda Estou Aqui e...

O cinema brasileiro tenta emplacar mais uma indicação ao Oscar Com Feito Pipa, dirigido pelo cearense Allan Deberton. O longa, que chegou aos cinemas nesta quinta-feira (5/11), aposta em mostrar o Brasil interiorano, distante dos grandes centros urbanos, como trunfo para conquistar a Academia. Nos últimos dois anos, o país obteve êxito com Ainda Estou Aqui, que levou uma estatueta, e O Agente Secreto, que somou quatro indicações.

Estrelado por Yuri Gomes, de 12 anos, o filme acompanha Gugu, um menino que sonha ser jogador de futebol e enfrenta o preconceito por ser afeminado. Ele vive com a avó Dilma, interpretada por Teca Pereira, que lida com o avanço do Alzheimer e o risco de se separar do neto. A trama se passa em Quixadá, no sertão central do Ceará, cenário que contrasta com os cartões-postais do Rio de Janeiro e de São Paulo, presentes em Ainda Estou Aqui, e com o Recife da década de 1970, retratado em O Agente Secreto.

O longa foi o mais premiado da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Na história, Gugu precisa encarar a possibilidade de deixar a vida ao lado da avó para morar com o pai, Batista, vivido por Lázaro Ramos. A relação entre os dois se desenvolve em aulas de pilotagem de moto, muitas vezes sem capacete e com o menino conduzindo o veículo pelas vias urbanas. A escolha dialoga com a realidade nordestina: segundo o IBGE, a região tem mais motocicletas do que carros, com 34,5% da frota em duas rodas e 30% em veículos de quatro rodas.

Dos 5.569 municípios brasileiros, apenas 48 têm população superior a 500 mil habitantes. Ao ser rodado em uma cidade com cerca de 81 mil moradores, Feito Pipa mergulha no chamado Brasil profundo, expressão que ganhou popularidade nas redes sociais para designar culturas e modos de vida que escapam ao olhar das capitais. O escritor Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário com Torto Arado, descreveu a expressão: “O Brasil não é aquilo que passa na TV ou os lugares que são exaltados. São as vidas e as pessoas que ainda estão invisíveis. Todas elas têm uma potência de vida criativa, que podem explicar esse país”.

Quixadá abriga os grandes monólitos, formações geológicas de rocha maciça, a fazenda Não Me Deixes, que pertenceu à escritora Rachel de Queiroz, e um campus de tecnologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Com Feito Pipa, cearenses e brasileiros de outros estados que vivem no interior poderão reconhecer na tela aspectos da própria existência, sem que ela seja traduzida em atraso, pobreza ou miséria. Mais do que buscar uma vaga no Oscar, o filme tem a oportunidade de ampliar o imaginário sobre o Brasil.

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