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Morre ex-arcebispo de Curitiba Dom Pedro Fedalto

Religioso comandou a Arquidiocese de Curitiba por 33 anos e atravessou períodos de profundas mudanças na Igreja e na sociedade brasileira Dom Pedro Antônio Marchetti Fedalto, arcebispo...


Religioso comandou a Arquidiocese de Curitiba por 33 anos e atravessou períodos de profundas mudanças na Igreja e na sociedade brasileira

Dom Pedro Antônio Marchetti Fedalto, arcebispo emérito de Curitiba, morreu aos 100 anos na tarde deste sábado, 26 de setembro. Ao longo de mais de sete décadas de sacerdócio, o religioso participou de diferentes momentos da história da Igreja Católica no Paraná e esteve à frente da Arquidiocese de Curitiba durante 33 anos, entre 1971 e 2004.

Mais do que pela duração do episcopado, a presença de Dom Pedro ficou associada às transformações pastorais e litúrgicas que marcaram a Igreja curitibana na segunda metade do século 20. Foram três décadas em que a Arquidiocese passou pela adaptação às orientações do Concílio Vaticano II, pela expansão das paróquias e comunidades, pela aproximação com movimentos sociais e por grandes celebrações que reuniram milhares de fiéis.

Dom Pedro nasceu em 11 de agosto de 1926, na Colônia Antônio Rebouças, em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba. Filho de imigrantes italianos, ingressou ainda adolescente no Seminário São José, em Curitiba. Mais tarde, estudou Filosofia e Teologia no Seminário Central da Imaculada Conceição do Ipiranga, em São Paulo.

Foi ordenado sacerdote em 6 de dezembro de 1953, na Catedral Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Dois dias depois, celebrou a primeira missa solene na Capela de Nossa Senhora do Carmo, na comunidade onde nasceu. Antes de chegar ao episcopado, ocupou funções como secretário do arcebispo, chanceler da Cúria, reitor e diretor espiritual do Seminário Rainha dos Apóstolos, capelão, cerimoniário arquidiocesano e vigário geral.

Em 1966, aos 39 anos, foi nomeado bispo auxiliar de Curitiba. Quatro anos depois, após a morte de Dom Manuel da Silveira D’Elboux, foi escolhido para comandar a Arquidiocese. A posse como quarto arcebispo metropolitano ocorreu em 28 de fevereiro de 1971. Permaneceu no cargo até 2004, quando apresentou sua renúncia ao atingir a idade prevista pelo direito canônico.

Durante o episcopado, Dom Pedro reorganizou a Arquidiocese em quatro grandes áreas pastorais e 18 setores. Criou 74 novas paróquias, ordenou 74 padres diocesanos e acompanhou a chegada de congregações religiosas femininas e masculinas. Também promoveu as Santas Missões Populares, em 1975 e 2000, e conduziu o primeiro Sínodo Arquidiocesano de Curitiba, realizado entre 1987 e 1994.

A atuação de Dom Pedro também atravessou os anos mais duros da ditadura militar. Seu posicionamento não se confundia com o de setores da Igreja que adotavam uma postura de confronto político direto com o regime, mas há registros de sua participação em iniciativas relacionadas à defesa de direitos e à situação de trabalhadores e populações vulneráveis.

Em 1978, durante o episódio envolvendo prisões políticas em Curitiba e o desaparecimento da professora Juracilda da Silva, Dom Pedro comentou uma carta aberta de entidades da sociedade civil que denunciava o clima de insegurança e cobrava esclarecimentos sobre os casos. O tema dos direitos humanos chegou às missas dominicais da cidade.

Dois anos depois, em entrevista publicada pela imprensa, Dom Pedro defendeu que a Igreja deveria atuar em defesa dos pobres e afirmou que a participação da Igreja na greve dos metalúrgicos de São Paulo tinha como objetivo defender trabalhadores que, segundo ele, “não têm vez e voz”. No mesmo período, apoiou a criação de um Centro de Orientação dos Migrantes em Curitiba, financiado com recursos da Campanha da Fraternidade.

A relação com os movimentos sociais, porém, tinha limites definidos pelo próprio arcebispo. Em 1986, ao tratar da questão agrária e da Campanha da Fraternidade daquele ano, Dom Pedro afirmou que a Igreja apoiava organizações e movimentos populares que reivindicavam terra e mudanças na política agrária, mas não aprovava invasões ou ações violentas. Também defendia que a atuação social da Igreja não deveria se transformar em ação político-partidária.

Essa posição ajuda a compreender a forma como Dom Pedro conduziu a Arquidiocese em um período de crescimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), pastorais sociais e organizações populares. Em texto de 1973, o próprio arcebispo relatou ter mudado sua avaliação inicial sobre as CEBs depois de acompanhar uma experiência na Paróquia São Francisco do Xaxim. Ele destacou a capacidade dos grupos de discutir problemas das comunidades e buscar soluções para questões como educação, saúde e transporte.

A liturgia foi outra dimensão importante de seu episcopado. Dom Pedro assumiu a Arquidiocese poucos anos depois do encerramento do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, período em que a Igreja Católica passou por uma ampla reforma litúrgica. Em Curitiba, a mudança significou uma passagem gradual de um modelo mais centrado no sacerdote e no uso do latim para celebrações com maior participação da assembleia, uso das línguas locais, novas formas de proclamação da Palavra e maior presença de leigos nos serviços litúrgicos.

Em entrevista concedida em 1991, Dom Pedro reconheceu que a nova liturgia decorrente do Concílio Vaticano II havia ampliado a participação dos fiéis. Ao mesmo tempo, avaliou que a reforma ainda não havia alcançado completamente seu objetivo de aproximar a fé da vida cotidiana.

A mudança não ocorreu de uma vez. A Arquidiocese de Curitiba atravessou os anos 1970 e 1980 adaptando paróquias, comunidades e agentes pastorais às novas orientações. A formação de pequenas comunidades, grupos de família, ministros e catequistas passou a fazer parte de uma Igreja que procurava ampliar a participação dos leigos. A CNBB Regional Sul 2 destaca que Dom Pedro teve participação importante na implementação das orientações do Vaticano II no Paraná e na formação de diferentes modelos de pequenas comunidades.

Um dos episódios mais significativos dessa abertura ocorreu em 1987, quando a Catedral de Curitiba recebeu uma celebração com elementos da liturgia afro, realizada durante uma programação do movimento negro da cidade. A missa foi concelebrada por Dom Pedro Fedalto e por Dom José Maria Pires, conhecido como Dom Zumbi. Registros históricos apontam o episódio como a primeira celebração com elementos e liturgia afro realizada em uma catedral brasileira.

A liturgia também marcou a relação de Dom Pedro com gerações de católicos curitibanos. Durante mais de três décadas, ele presidiu ordenações, crismas, missas solenes e celebrações em diferentes comunidades. Em 1998, uma Crisma Comunitária realizada no Estádio do Pinheirão reuniu 12.352 jovens de 145 paróquias da Arquidiocese. O evento envolveu bispos auxiliares, padres, diáconos e catequistas.

Outro momento que ficou associado à memória religiosa de Curitiba foi a visita do Papa João Paulo II, nos dias 5 e 6 de julho de 1980. Dom Pedro participou diretamente da organização da passagem do pontífice pela capital, que reuniu cerca de 1 milhão de pessoas nas celebrações e no percurso da visita. João Paulo II celebrou missa no Estádio Couto Pereira e, no dia seguinte, participou de uma celebração na Praça Nossa Senhora de Salete.

A presença de Dom Pedro nas celebrações ajudou a construir uma memória litúrgica compartilhada por diferentes gerações de católicos de Curitiba. Para muitos fiéis, sua imagem esteve ligada à Catedral da Praça Tiradentes, às grandes celebrações arquidiocesanas, às ordenações sacerdotais e às missas que marcaram momentos importantes da vida religiosa da cidade. A própria Arquidiocese registra que ele batizou, ordenou padres, ministrou a Eucaristia e celebrou a Crisma de gerações de fiéis durante seu longo episcopado.

O período também foi marcado pela criação e consolidação de espaços de devoção. Em 2001, por exemplo, Dom Pedro assinou o decreto que elevou a Paróquia Nossa Senhora do Carmo a Santuário, em uma celebração ligada aos 750 anos da entrega do Escapulário.

Dom Pedro também participou da preservação do patrimônio religioso da capital. Em 1981, inaugurou o Museu de Arte Sacra de Curitiba, instalado junto à Igreja da Ordem, no Largo da Ordem. A instituição passou a reunir parte importante do acervo histórico religioso da cidade.

Durante o episcopado, a Arquidiocese também ampliou sua presença social e comunitária. A atuação pastoral alcançou migrantes, famílias de baixa renda, trabalhadores e comunidades periféricas. As missões populares e a divisão da estrutura arquidiocesana em áreas e setores buscaram aproximar a Igreja das comunidades e descentralizar sua atuação.

Em 2004, após 33 anos à frente da Arquidiocese, Dom Pedro deixou o governo pastoral e passou a ser arcebispo emérito. Mesmo depois da renúncia, continuou ligado ao Seminário São José, onde viveu por muitos anos e manteve atividades religiosas. Em 2008, recebeu da Pontifícia Universidade Católica do Paraná o título de Doutor Honoris Causa. Também publicou obras sobre a história da Igreja no Paraná e sobre sua própria região de origem.

Pouco mais de um mês antes da morte, Dom Pedro foi homenageado pelos 100 anos de vida. A celebração ocorreu em 11 de agosto, no Seminário São José, em Curitiba, e reuniu bispos, padres, religiosos, autoridades e familiares. Por causa da idade, participou apenas da parte final da missa, quando abençoou os presentes e rezou o Pai Nosso e a Ave Maria. Na ocasião, recebeu uma bênção apostólica especial enviada pelo Papa Leão XIV.

Com a morte de Dom Pedro Fedalto, Curitiba perde uma das figuras que acompanharam a transformação da Igreja local durante boa parte da segunda metade do século 20 e os primeiros anos do século 21. Seu episcopado atravessou a reforma litúrgica do pós-Concílio Vaticano II, a ditadura militar, a redemocratização, a expansão das pastorais sociais e a formação de novas comunidades.

A missa de corpo presente está marcada para segunda-feira, dia 28 de setembro, às 10h, na Catedral Basílica de Curitiba. O sepultamento ocorrerá na sequência.

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Fonte:Paraná Jornal

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