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Software jurídico feito no interior do Paraná disputa um mercado que se acostumou a nascer em São Paulo

Enquanto as ferramentas de IA de maior uso no país são de empresas americanas, uma companhia paranaense aposta que conhecer a rotina do cliente vale mais do...

Enquanto as ferramentas de IA de maior uso no país são de empresas americanas, uma companhia paranaense aposta que conhecer a rotina do cliente vale mais do que estar perto do capital.
O setor de tecnologia jurídica no Brasil está concentrado no eixo Rio-São Paulo. É lá que ficam os eventos do setor e os fundos que financiam as empresas. As ferramentas de IA mais usadas no país também são de empresas americanas. Para escritórios e serventias do interior, isso costuma significar usar o que foi desenhado para outra realidade e adaptar o resto na base do improviso.
A Locus.IA, empresa de software desenvolvido no interior do Paraná, ocupa esse espaço.
O contexto ajuda a explicar o momento. Desde 23 de fevereiro de 2026 está em vigor o Provimento 213 do Conselho Nacional de Justiça, norma que elevou as exigências de segurança da informação para os serviços notariais e de registro: autenticação reforçada, criptografia, registro de quem acessou o quê, cláusulas obrigatórias no contrato com o fornecedor. Nada disso é trivial para quem toca um cartório com equipe reduzida. A norma deixou claro que contratar solução de terceiro não afasta nem mitiga a responsabilidade pessoal do delegatário. Ela não regula inteligência artificial.
A empresa nasceu antes dessa corrida. Guilherme F. Pereira, advogado e fundador da Locus.IA, construiu o programa para duas mesas de trabalho que conhecia de perto: a dele e a da esposa, tabeliã. Só depois aquilo virou produto.
“Eu não fiz isso para vender. Fiz porque a gente estava perdendo noite com trabalho que não devia consumir noite nenhuma”, diz Pereira. “Software feito por quem só leu sobre a rotina tem um jeito. Ele resolve a parte bonita do problema e larga a parte chata, que é exatamente onde a pessoa perde o dia.”
O programa reúne seis ferramentas: indexa os documentos no próprio computador, transcreve e reconhece texto em imagem, trata arquivos PDF inteiramente no computador do usuário, sem enviar nada para fora, e monta a peça em Word no modelo do próprio escritório. As duas restantes fazem uma segunda conferência dos dados e assinam documentos com certificado digital.
Perguntar aos documentos, a Oficina da Escrita e a calculadora dependem de processamento externo. Nessas três funções entra uma etapa de pseudonimização, que substitui identificadores por rótulos antes do envio.
A escolha de onde o dado passa não é detalhe técnico. Dados guardados por empresa americana podem ser requisitados pelo governo dos Estados Unidos, e isso pode acontecer sem que o titular seja avisado. Um escritório que trabalha com petição inicial e documentos de processo costuma lidar com dado pessoal, e muitas vezes com dado sensível, como saúde ou situação financeira. Isso entra na conta na hora de decidir onde processar cada informação. O sigilo profissional segue sendo dever do advogado, e o fato de o arquivo ter trocado de suporte não o extingue.
“Tem gente que acha que no interior você faz uma versão mais simples da coisa. Não é isso”, afirma Pereira. “Aqui você atende o telefone e a pessoa do outro lado está com o problema acontecendo naquele minuto. Isso muda o que você constrói. Depois de um tempo, você não consegue mais programar de outro jeito.”
O posicionamento regional, no fim, é econômico. Fora do eixo Rio-São Paulo, o custo de operar é outro e o ritmo de decisão também muda. O cliente costuma estar a uma ligação de distância, não a um formulário de suporte preenchido às pressas. Quem quiser ver como a Locus.IA se posiciona ao lado de outras opções do mercado, nacionais e internacionais, encontra o levantamento em um comparativo entre as principais IAs jurídicas do país.

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