O planeta Mercúrio, o menor e um dos menos explorados do Sistema Solar interior, esconde mistérios muito maiores do que seu tamanho poderia sugerir. Agora, os cientistas estão prestes a contar com não uma, mas duas espaçonaves especialmente projetadas para investigar esse mundo peculiar. Isso será possível graças à missão BepiColombo, uma iniciativa conjunta da Agência Espacial Europeia (ESA) e da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), lançada em outubro de 2018.
Depois de uma longa e complexa viagem pelo Sistema Solar interior, a missão chega agora a uma etapa crucial: em 3 de setembro, a espaçonave realiza uma manobra importante relacionada à preparação de seus equipamentos científicos para a fase orbital. A expectativa é que, até abril de 2027, as duas sondas carregadas de instrumentos estejam coletando uma grande quantidade de dados sobre Mercúrio, ajudando os pesquisadores a solucionar alguns dos enigmas desse planeta e, talvez, até mesmo a compreender melhor a formação do próprio Sistema Solar.
“Poder ver novos dados sobre Mercúrio surgindo será fantástico”, afirmou Rachel Klima, geóloga planetária do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins. Para ela, o planeta é “simplesmente muito estranho, bonito e interessante”.
Por enquanto, Mercúrio possui o duvidoso título de planeta menos explorado do Sistema Solar interior, tendo sido visitado diretamente por apenas duas missões antes da chegada da BepiColombo. A espaçonave Mariner 10, da NASA, realizou três rápidas passagens pelo planeta entre 1974 e 1975. Essas observações forneceram aos cientistas as primeiras imagens detalhadas de sua superfície repleta de crateras e fraturas e também confirmaram que Mercúrio possui tanto uma atmosfera extremamente tênue quanto um campo magnético.
“Ela realmente nos proporcionou nossa primeira visão de perto de Mercúrio”, explicou Sean Solomon, cientista planetário da Universidade Columbia. “Mas deixou muitas páginas em branco.”
Durante décadas, essa foi praticamente toda a informação disponível. Os cientistas só retornaram a Mercúrio em 2011, quando a sonda MESSENGER, da NASA, chegou ao pequeno planeta. Solomon era o principal investigador da missão. Mercúrio possui um raio de aproximadamente 2.440 quilômetros, o que significa que seu diâmetro é de cerca de 4.880 quilômetros, pouco mais de um terço do diâmetro da Terra. A MESSENGER foi equipada com uma grande variedade de instrumentos desenvolvidos especificamente para estudar o planeta, incluindo espectrômetros capazes de detectar raios gama, raios X e nêutrons, além de equipamentos destinados a analisar a atmosfera e medir o campo magnético. Diferentemente da Mariner 10, ela foi projetada para permanecer em órbita ao redor de Mercúrio.
Durante quatro anos, a MESSENGER observou o planeta e permitiu que os cientistas obtivessem, pela primeira vez, uma visão completa de sua superfície. No final da missão, a sonda chegou a passar a apenas cerca de 25 quilômetros acima do terreno mercuriano. Mesmo assim, a MESSENGER não conseguiu solucionar todos os enigmas do planeta nem determinar exatamente como ele se formou. “Acho que ainda não há consenso sobre exatamente como Mercúrio foi formado”, disse Solomon.
A missão também revelou uma série de mistérios menores. A MESSENGER encontrou estruturas brilhantes e com paredes íngremes que os cientistas chamaram de “hollows”, ou cavidades. Descobriu ainda que diversos elementos químicos voláteis — substâncias que tendem a escapar das rochas com relativa facilidade — estão presentes na superfície de Mercúrio em concentrações surpreendentemente elevadas quando comparadas às encontradas na Terra.
A sonda também mostrou que o centro do campo magnético do planeta está extraordinariamente deslocado em relação ao seu núcleo. Além disso, sua trajetória orbital apresentava limitações que fizeram com que a região sul de Mercúrio fosse observada com muito menos nitidez do que a região norte. Como consequência, uma parte significativa do planeta permaneceu relativamente desconhecida.
É justamente para investigar esses mistérios que a ambiciosa missão BepiColombo foi concebida. Quando a missão estiver plenamente operacional, a expectativa é que ela seja composta por duas espaçonaves independentes, capazes de realizar observações coordenadas de diferentes aspectos de Mercúrio.
A Mercury Planetary Orbiter, ou MPO, da Europa, concentrará sua atenção principalmente no próprio planeta. Ela transporta 11 instrumentos científicos destinados a mapear o terreno, estudar os minerais presentes na crosta e investigar o campo gravitacional de Mercúrio. Seus equipamentos também irão examinar as misteriosas cavidades encontradas pela MESSENGER, depósitos associados à atividade vulcânica e os efeitos do constante bombardeio de partículas carregadas provenientes do Sol sobre o planeta mais próximo da nossa estrela.
A Mercury Magnetospheric Orbiter, chamada Mio, da JAXA, terá como principal objetivo estudar o ambiente ao redor de Mercúrio. Isso inclui sua magnetosfera — a região dominada pelo campo magnético do planeta —, sua atmosfera extremamente rarefeita e a poeira existente nas proximidades do planeta.
As duas espaçonaves também carregam instrumentos capazes de medir o campo magnético de Mercúrio. Isso é particularmente importante porque permitirá realizar observações simultâneas de diferentes regiões do campo, algo que normalmente é muito mais difícil quando os cientistas precisam trabalhar com dados coletados por uma única sonda em um único ponto de cada vez.
Alguns dos instrumentos da BepiColombo já conseguiram realizar observações durante a longa viagem até Mercúrio e durante as seis rápidas passagens que a missão fez pelo planeta. No entanto, devido à maneira como as duas sondas foram montadas e configuradas para suportar a viagem, a maior parte dos equipamentos científicos ainda não pôde operar em sua capacidade total. A separação das sondas está prevista para dezembro, depois da qual cada uma poderá assumir sua própria trajetória e iniciar a fase científica principal da missão.
Por isso, a ciência produzida pela BepiColombo até agora surgiu apenas de maneira limitada, enquanto a maior parte do potencial da missão ainda está por vir. “Existe uma quantidade crescente de trabalhos científicos com novos resultados provenientes das passagens da BepiColombo, mas espero que isso exploda quando elas entrarem em órbita”, afirmou Solomon.
Ele está especialmente interessado nas imagens e medições detalhadas que as sondas poderão realizar do hemisfério sul de Mercúrio. Uma das possibilidades mais intrigantes é a identificação de depósitos de gelo de água escondidos nessa região. Apesar de Mercúrio ser o planeta mais próximo do Sol, algumas de suas crateras profundas possuem áreas que nunca recebem luz solar direta. Como consequência, o interior dessas crateras pode permanecer permanentemente congelado, permitindo que depósitos de gelo sobrevivam apesar das temperaturas extremas encontradas na superfície do planeta. Investigar essas regiões permitirá também reduzir a predominância das observações do hemisfério norte presente nos dados da MESSENGER e construir uma visão muito mais completa de Mercúrio.
Enquanto Solomon está particularmente interessado no hemisfério sul e na possibilidade de encontrar gelo, Klima aguarda com maior expectativa o trabalho da MPO na identificação e no mapeamento dos elementos químicos e minerais presentes na superfície do planeta. Esse tipo de investigação foi uma das dificuldades enfrentadas pela MESSENGER. A técnica utilizada por ela dependia, em grande medida, da presença de ferro e de materiais semelhantes nas rochas. O problema é que Mercúrio revelou possuir uma quantidade muito menor desses elementos do que o método de análise pressupunha, dificultando a identificação precisa da composição de sua superfície.
A MPO utilizará uma tecnologia diferente, capaz de analisar as rochas mesmo quando elas não possuem grandes quantidades de ferro. Essas informações poderão ser fundamentais para determinar do que Mercúrio é realmente feito e, consequentemente, reconstruir sua história. Ao descobrir quais materiais constituem o planeta e como eles estão distribuídos, os cientistas podem obter pistas sobre os processos que ocorreram durante sua formação. Essas respostas não seriam importantes apenas para compreender Mercúrio, mas também para entender como os planetas rochosos, incluindo a própria Terra, se formaram e evoluíram.
Para Klima, a BepiColombo também poderá despertar maior interesse por um planeta que frequentemente fica à sombra de seus vizinhos. “Ele certamente não recebe o carinho e a atenção que Marte, Vênus e tantos outros lugares recebem”, afirmou. Apesar de ser pequeno, extremamente quente durante o dia, sujeito a temperaturas brutalmente baixas durante a noite e localizado tão próximo do Sol que sua exploração é particularmente difícil, Mercúrio pode guardar informações fundamentais sobre a origem e a evolução de todo o Sistema Solar.
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Fonte:Paraná Jornal





